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Ensino superior: Um bicho de sete cabeças?

Ensino superior: Um bicho de sete cabeças?

Para alguns jovens Setembro é mês de mudança, mudam-se ciclos, instituições, cidades e casas na esperança de apostar num futuro profissional agradável e na própria formação pessoal. Infelizmente esta lufada de ar fresco só o é para alguns. Este ano menos 3146 pessoas se candidataram ao Ensino superior.  Números que fazem diferença quando tentamos analisar as dificuldades na continuação dos estudos.

Desde os anos noventa que a Educação passou de Direito a Privilégio. O Estado na tentativa de se descartar das suas obrigações para com a educação implementou as propinas. Assistimos à plena mercantilização do Ensino e à elitização no acesso às universidades. Para além disto, as propinas que começaram por ser de 6 euros anuais hoje ultrapassam os 1000. Números absurdos como este fazem com que muitos estudantes vivam em situações precárias, nas quais tentam conciliar os estudos e os part-times sobrando-lhes pouco ou nada do dinheiro; alguns nem sequer podem tentar pedir uma bolsa de estudo porque os pais são detentores de um qualquer imóvel; outros, nem sequer tentam ingressar no Ensino Superior porque julgam que não lhes está acessível, não fazem parte dos ‘afortunados’ que têm esse direito. A consciência e a revolta começam a despertar nos jovens e movimentos como o Cancela a Propina têm ganho muita força a nível nacional que aos poucos começam a mover esforços para acabar com as injustiças que nos foram impostas.

Outro obstáculo na entrada de estudantes no Ensino Superior passa pelos elevados preços das rendas. Muitos estudantes precisam de se deslocar, e, inclusive, mudar em tempo de aulas, mas nem o direito à cidade é mais do cidadão comum. Começa a ser impossível em cidades como Porto e Lisboa onde o número de alunos deslocados é de facto considerável, arrendar um quarto por menos de 300 euros. Isto sem contar com as despesas como eletricidade, água e internet que só vêm inflacionar as contas mensais. Os alojamentos dos serviços sociais das faculdades estão entupidos e não conseguem dar resposta a tanta procura. Alguns estudantes que vivem a 30 e 40 km da cidade onde estudam e por vezes até mais são obrigados a levantarem-se ainda de madrugada e sair antes das aulas terminarem para conseguirem apanhar o último transporte.

O Ensino Superior em Portugal deixou de ser olhado com reconhecimento social e cultural e passou a ser olhado como uma espécie de formatação profissional que só alguns devem ter acesso. Basta olhar para a clara separação dos percursos dos cursos científico-humanísticos e do ensino profissional. Se um estudante precisar de apoios monetários já no ensino secundário tendencialmente vai optar por um curso profissional, não porque não ambicione dar continuidade aos seus estudos numa universidade, mas porque a compra de manuais escolares e o acesso aos transportes públicos sem qualquer tipo de apoio monetário são inalcançáveis. No entanto, o ingresso ao Ensino Superior não tem em conta os diferentes percursos. Não se verifica equidade no processo de seleção, pois, se um estudante de um curso profissional teve ao longo do ensino secundário um tipo de ensino estruturado de forma completamente diferente e organizado de forma muito mais técnica terá de dar resposta aos Exames Nacionais da mesma forma do que um aluno de um curso cientifico-humanístico que nada mais fez se não se preparar para estes exames ao longo dos três anos. De nada adiantaria ao estudante do curso profissional ter uma média de 20 valores se o seu exame não for consoante os padrões exigidos. Urge aqui a necessidade de repensar o modelo de acesso ao Ensino Superior.

Face a todos estes entraves ao Ensino Superior não podemos esquecer a praxe que embora não se possa falar dela enquanto entrave pode-se falar enquanto insuficiência de alternativas de integração dos novos alunos. Os estudantes recém-chegados ao Ensino Superior procuram amizades, convívios, espaços que lhes permitam expandir o pensamento crítico e o conhecimento. No entanto, poucos são os espaços que realmente lhes oferecem resposta a tais necessidades. A praxe surge então nesta lacuna disfarçada de resposta, os estudantes ainda sem conhecerem alternativas, não oferecem grande resistência e encontram na praxe o refúgio que precisavam. Têm surgindo respostas como o Cria’ctividade (Coimbra) e o AlternAtiva (Lisboa) que vêm reafirmando a importância de espaços onde é possível conviver sem hierarquias mas que vão precisando de apostas e visibilidade, porque até agora pouco lhes foi dado para além do contributo dos estudantes que se identificam com a causa.

De facto, o Ensino Superior em Portugal tem-se revelado um bicho de sete cabeças e por vezes a decisão mais fácil e que se impõe para muitos jovens é a de ir trabalhar e abandonar sonhos, até porque sonhar não está à disposição de todos. No caso concreto de Santa Maria da Feira a Câmara dispensa algumas bolsas de estudo, insuficientes tendo em conta o número de estudantes que existem no Concelho e ainda mais insuficientes quando só se obtém uma resposta e a respetiva ajuda monetária por volta do mês de junho, mesmo mês em que acabam as aulas e até lá foi preciso ir pagando propinas para liberar notas. Como estudantes aceitamos sem reivindicar com o pensamento conformista de que toda a ajuda é pouca porque rara é a ajuda e o incentivo a estudar neste país.

Bianca de Almeida