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A cultura é progresso

A cultura é progresso

A cultura é um dos motores do progresso social e os últimos anos tem sido de luta para aqueles que fazem deste sector importantíssimo a sua vida. Esta é uma luta que já dura há mais tempo do que devia e a única coisa que é pedida é que este sector seja tratado com a dignidade e o valor que lhe é devido.

Aqueles que ainda subsistem no meio queixam-se da precariedade a que o sector está entregue, da falta de contratos de trabalho, dos recibos verdes e dos salários em atraso.

Ainda que existam grandes companhias de teatro e, com toda a graciosidade institucional, sejam cortadas as fitas de novos espaços culturais por este país fora, o problema do desinvestimento e do subfinanciamento para a produção cultural continua como cabeça de cartaz. E a culpa é de quem? Quem são os protagonistas deste drama pelo qual o sector atravessa?

Se olharmos para a história encontraremos certamente culpados. Os governantes que ao longo dos anos viraram a cara à cultura não o fizeram por questões financeiras ou por mera ignorância, como alguns podem apregoar. O desinvestimento na cultura é, e sempre foi, uma questão ideológica.

Aqueles que livremente pensam, e materializam esse pensamento para as massas, seja em forma de teatro, cinema ou qualquer outra forma de produção artística, sempre foram o calcanhar de Aquiles de uma classe política jurássica que se perpetua no poder através da manipulação e da desinformação. A cultura que é aceite pelas elites neoliberais e conservadoras é aquela que não agita, que não incomoda e principalmente que entorpece quem a consome. Para os regressos ao passado e recriações do tempo da outra senhora existem sempre fundos e publicidade.

Mas podemos dar rosto a quem tem medo de um povo culto e livre. Por exemplo, em 2011, o governo PSD-CDS-PP, que teve como líder um rejeitado cantor lírico de nome Pedro Passos Coelho, apresentou-se com uma composição ministerial da qual não fazia parte um Ministério da Cultura. Isto, porém, não era novo em Portugal já que durante os mandatos de primeiro-ministro, Cavaco Silva recusou também a criação desses ministérios. Este panorama, infelizmente, estende-se de igual modo ao poder local, existindo autarquias que praticamente empurram os intervenientes culturais para fora das suas áreas.

Enganem-se aqueles que vêm neste governo do PS uma alternativa. António Costa, antes de ser eleito defendia publicamente que para além de um Ministério da Cultura o país precisava também de um Governo de cultura. Integrar o orçamento anual da RTP na Cultura para que este seja inflacionado é apenas e só atirar areia para os olhos daqueles que anseiam por respeito e dignidade no seu trabalho. Por muitos malabarismos que se façam, o orçamento do Estado continua a relegar a Cultura para o canto. As vozes que se erguem pedem 1%, que é mais do que viável, e existem exemplos, como é o caso da Islândia, que gasta mais de 3% do PIB.

Posto isto, acredito que as vozes dos artistas e agentes culturais não irão dar tréguas a este governo, ou a qualquer outro, enquanto não for feita justiça para aquele que é um dos pilares fundamentais de qualquer democracia. O antigo regime que censurava Zeca Afonso, José Mário Branco e tantos outros que, com a sua arte, libertavam as mentes daqueles que os ouviam, que matou o artista plástico José Dias Coelho e afugentou tantos outros, ainda vive nas mentes de alguns que censuraram Saramago e, até aos dias de hoje, asfixiam a produção cultural. O medo do progresso e o conservadorismo é o que impede o investimento na cultura, não é a troika nem a Europa.